O Brasil chegou a 2025 com a menor taxa de analfabetismo da série histórica iniciada em 2016. Mesmo assim, 8,4 milhões de pessoas com 15 anos ou mais ainda não sabiam ler e escrever um bilhete simples, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em junho deste ano. Apesar do número, a taxa ficou abaixo de 5% pela primeira vez.
No mês do Dia Internacional da Alfabetização, celebrado em 8 de setembro, o dado ajuda a ampliar uma discussão: aprender a decodificar palavras é apenas o começo da formação de um leitor.
Compreender sentidos, relacionar informações, identificar diferentes pontos de vista e argumentar a partir do que foi lido são habilidades desenvolvidas ao longo de toda a trajetória escolar. No Colégio Marista Ribeirão Preto, esse trabalho começa na Educação Infantil e segue até o Ensino Médio, com contação de histórias, empréstimo de livros, produção de textos, debates e contato com diferentes gêneros literários.
“Formar leitores vai muito além de juntar letras. É capacitar o indivíduo a ler o mundo, compreender as entrelinhas da realidade e posicionar-se de maneira ética, consciente e cidadã”, afirma Daniella Pereira, bibliotecária do colégio.
25 mil livros e crianças que viram autoras
A escola mantém cerca de 25 mil livros disponíveis aos estudantes: aproximadamente 5 mil na Biblioteca Infantil e quase 20 mil no Centro de Recursos de Aprendizagem (CRA). A proposta é ampliar o repertório, mas também dar espaço para escolhas.
“A virada acontece quando o estudante percebe que a leitura não se resume a um teste ou resumo obrigatório. Quando se pode escolher títulos, opinar e relacionar uma história com a própria vida, o livro deixa de ser uma imposição”, diz Daniella.
Um exemplo é o projeto Estrelas Literárias, realizado com estudantes do 3º ano do Ensino Fundamental. As crianças escrevem os próprios livros e participam de um lançamento com manhã de autógrafos. Durante o processo, precisam organizar ideias, construir uma sequência narrativa e pensar em quem vai ler suas histórias.
No Ensino Médio, literatura ganha o palco
Na 2ª série do Ensino Médio, a leitura assume novas camadas de interpretação. Uma das iniciativas é o Sarau Literomusical, desenvolvido nas aulas de Português e Literatura e marcado para 17 de setembro deste ano, no Teatro Marista.
Os estudantes transformam referências literárias em apresentações de música, dança, teatro, declamação e humor. Para isso, precisam compreender os textos, construir uma interpretação própria e adaptá-los para outras linguagens.
“O Sarau faz com que a aprendizagem extrapole os limites da sala de aula. Os estudantes precisam interpretar, fazer escolhas, organizar ideias e trabalhar coletivamente”, afirma Lucyenne dos Santos Bexiga Silva, professora de Português e Literatura.
Criado em 2012, o projeto também se tornou uma memória afetiva para os estudantes. Segundo a professora, ex-alunos frequentemente citam o Sarau entre as experiências mais marcantes vividas no colégio.
Leitura disputa atenção com as telas
Outro desafio é fazer com que os livros encontrem espaço em uma rotina marcada por redes sociais, vídeos curtos e estímulos digitais. Na escola, aparelhos eletrônicos pessoais seguem as regras previstas na Lei Federal nº 15.100/2025, enquanto tablets e notebooks institucionais continuam disponíveis para atividades pedagógicas.
Fora dela, hábitos simples também podem ajudar: adultos que leem, conversas sobre livros, visitas a bibliotecas e momentos reservados para a leitura.
Nesse percurso, a alfabetização é o ponto de partida. O passo seguinte é fazer com que crianças e adolescentes avancem na identificação das palavras para a capacidade de compreender, interpretar, questionar e usar aquilo que leem.
















