Quando se fala em acidentes de trabalho, é comum imaginar falhas em equipamentos, ausência de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) ou descumprimento de normas de segurança. No entanto, um fator muitas vezes passa despercebido pelas empresas: as condições físicas e mentais do próprio trabalhador.

Dormir pouco, trabalhar sob efeito de medicamentos que reduzem a atenção, enfrentar dores constantes, sofrer com estresse intenso ou comparecer ao trabalho mesmo estando doente são situações que podem comprometer a capacidade de concentração e aumentar significativamente o risco de erros e acidentes.

Segundo o médico do trabalho Dr. Eduardo Salles, esse é um tema que precisa ganhar mais espaço dentro das organizações.

“Quando pensamos em segurança do trabalho, normalmente lembramos de máquinas, equipamentos e EPIs. Tudo isso é fundamental, mas existe outro fator igualmente importante: o estado de saúde do trabalhador. Uma pessoa cansada, com dor, sonolenta ou emocionalmente abalada pode tomar decisões equivocadas, reagir mais lentamente e colocar a própria segurança e a dos colegas em risco, muitas vezes sem perceber”, explica.

O especialista destaca que esse cenário não está restrito às atividades industriais ou de alto risco. Escritórios, hospitais, escolas, supermercados, empresas de transporte e praticamente todos os ambientes de trabalho podem sofrer impactos quando um profissional exerce suas funções sem condições adequadas.

“Nem sempre o problema está na falta de conhecimento técnico. Muitas vezes, o trabalhador sabe exatamente o que precisa fazer, mas o organismo já não responde da mesma forma por causa do cansaço extremo, da privação de sono, do uso de determinados medicamentos ou até de questões emocionais. A capacidade de atenção diminui e o risco aumenta”, afirma.

Entre os fatores que merecem atenção estão noites mal dormidas, jornadas excessivas, uso de medicamentos que provocam sonolência, consumo de álcool antes do expediente, doenças agudas, dores incapacitantes, ansiedade intensa e outras condições que reduzem o estado de alerta.

Para o médico, reconhecer essas situações não significa punir o trabalhador, mas criar uma cultura de prevenção.

“A segurança não depende apenas do uso correto dos equipamentos. Ela também passa pela condição física e mental de quem está executando a atividade. Empresas que investem em saúde ocupacional, acompanhamento médico e promoção da qualidade de vida conseguem reduzir acidentes, afastamentos e melhorar o ambiente de trabalho como um todo”, ressalta.

O Dr. Eduardo lembra ainda que a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que reforçou a necessidade de gestão dos riscos psicossociais dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), evidencia que cuidar da saúde do trabalhador deixou de ser apenas uma questão de bem-estar para se tornar parte da estratégia de prevenção de acidentes.

“Cada empresa tem suas particularidades, mas todas precisam compreender que segurança é resultado de vários fatores trabalhando juntos. O trabalhador precisa estar protegido, treinado e, principalmente, em condições físicas e emocionais de exercer sua função com segurança. Esse olhar mais amplo salva vidas e beneficia toda a organização”, conclui.