O baixo desempenho dos novos professores brasileiros na última edição da Prova Nacional Docente (PND) não é um problema isolado das formações universitárias, mas reflexo direto de fragilidades acumuladas ao longo de toda a educação básica. A análise é do especialista em avaliação e regulação da educação superior, avaliador do Inep/MEC e CEO da Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo, Antonio Esteca, ao comentar os resultados da avaliação, que apontaram que mais de um terço dos docentes recém-formados não atingiu o nível mínimo de proficiência esperado para atuar em sala de aula.

“Para nós, especialistas em educação, esse resultado já era esperado. Percebemos, ano após ano, que muitos estudantes chegam à graduação com dificuldades acumuladas desde a educação básica”, afirma Esteca.

A avaliação, conduzida pelo Ministério da Educação (MEC), envolveu 21 áreas de licenciatura, entre elas, Matemática, Pedagogia, Artes, Letras Português, Letras Inglês, Letras Espanhol, Informática, entre outras, e mostrou diferenças importantes entre áreas do conhecimento e perfis de formação. O pior desempenho foi registrado em Matemática, em que 54,1% dos candidatos foram classificados abaixo do nível mínimo estabelecido. Em Artes, o índice chegou a 50,1%. Letras, Pedagogia e Educação Física também apresentaram resultados considerados preocupantes.

Segundo Esteca, a queda no interesse pela carreira docente não está ligada apenas à remuneração. “A desvalorização da profissão envolve um conjunto de fatores. Existe insegurança nas escolas, aumento de casos de violência contra professores, problemas de infraestrutura, falta de suporte tecnológico e dificuldades nas condições de trabalho. Tudo isso afasta muitos jovens das licenciaturas”, observa.

Dados da Unesco citados pelo especialista indicam que apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos desejam seguir a carreira docente, ampliando o desafio de renovação dos quadros da educação.

Ensino superior e formação docente

Os resultados da prova também levam ao debate sobre o desempenho de estudantes formados em cursos presenciais e a distância. Entre os concluintes de cursos EAD, o índice de não proficientes chegou a 53%, enquanto nos cursos presenciais o percentual foi menor.

Para Esteca, porém, o debate exige uma análise mais profunda. “Quando olhamos os dados completos, percebemos que a principal diferença não está necessariamente no formato presencial ou a distância, mas no perfil acadêmico dos estudantes e na diferença entre instituições públicas e privadas”, explica.

Segundo ele, instituições públicas acabam recebendo alunos com formação básica mais sólida devido aos processos seletivos mais concorridos. “As instituições privadas, especialmente em cursos de licenciatura com baixa procura, acabam recebendo muitos estudantes que já chegam com grandes dificuldades em conteúdos básicos e isso impacta diretamente o desempenho ao longo da graduação”, afirma.

Matemática preocupa especialistas

O desempenho dos cursos de Matemática chamou atenção especialmente pela dimensão das dificuldades apresentadas pelos concluintes. “Só 5% dos estudantes que concluem o ensino médio possuem nível adequado de conhecimento matemático. O aluno chega à licenciatura já com uma defasagem muito grande e isso aparece claramente nas avaliações nacionais”, destaca Antonio Esteca.

Para o especialista, o cenário demonstra a necessidade de fortalecer a aprendizagem desde os primeiros anos escolares. “O país precisa investir fortemente na educação básica, principalmente em alfabetização e matemática. Durante muito tempo houve aprovação automática sem acompanhamento efetivo da aprendizagem e isso gerou estudantes que concluem o ensino médio com dificuldades importantes de leitura, interpretação e raciocínio lógico”, analisa.

Soluções: valorização e formação continuada

Entre as soluções apontadas por Esteca estão a valorização da carreira docente e o investimento em formação continuada para professores que já atuam nas redes de ensino. “Precisamos melhorar salários, infraestrutura, plano de carreira e condições de trabalho. Isso ajuda a tornar a profissão mais atrativa e fortalece a formação dos futuros professores”.

Antonio Esteca destaca ainda que a melhoria da educação exige ações permanentes de atualização profissional. “Hoje já existe uma rede inteira funcionando com esses professores. Por isso, além de melhorar a formação inicial, é fundamental investir na formação continuada e no aperfeiçoamento dos profissionais que já estão em sala de aula”, conclui.


Sobre o especialista

Antonio Esteca é graduado e mestre em Ciência da Computação pela UNESP, especialista em Gestão de Negócios pelo IBMEC-RJ e doutor em Psicologia pela PUC-Campinas. Atua no ensino superior desde 2013, com experiência em docência, gestão acadêmica, inovação educacional e desenvolvimento institucional. É avaliador institucional do INEP/MEC e acompanha de perto temas relacionados à qualidade e às transformações da educação brasileira. Atualmente, destaca-se também como uma das 10 vozes de maior influência no LinkedIn no mundo na área da Educação Superior. Em sua pesquisa de doutorado, dedicou-se ao estudo da prevenção do bullying e do cyberbullying no contexto escolar, tema que dialoga diretamente com a formação de educadores e com a promoção de ambientes escolares mais seguros e saudáveis. Atualmente, é CEO e Diretor-Geral da Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo (FAMEESP), da Faculdade Metropolitana de Franca (FAMEF) e da Faculdade de Tecnologia, Ciências e Educação (FATECE).

Mais informações: https://www.linkedin.com/in/antonioesteca