Há histórias que não cabem apenas no álbum de família. Elas também ficam guardadas nos corredores da escola, nas salas de aula, nas quadras, nas orações, nas brincadeiras do recreio e nos rostos de professores que atravessam gerações. No caso de Camila Rodrigues, professora do Colégio Marista Ribeirão Preto, a própria trajetória se mistura à história da instituição.

Em maio, mês em comemora o mês da Família, sua história mostra como o vínculo entre escola e família pode ir além da rotina escolar. Mais do que acompanhar o desempenho dos alunos, essa presença também pode construir memória, pertencimento e continuidade.

Camila estudou a vida toda no Colégio Marista Ribeirão Preto e se formou no Terceirão de 1994. Anos depois, em 2005, voltou à instituição como educadora. Também escolheu o mesmo local para a formação da filha, que ingressou em 2002 e estudou na instituição até 2015, vivenciando parte do ambiente que marcou a infância e a formação da mãe.

A relação da família com o colégio começou antes mesmo dela ser aluna. Seu avô, Geraldo Rodrigues, participou da fundação da fanfarra. Mais tarde, sua mãe lecionou ali entre 1982 e 1997. Ela e os dois irmãos também estudaram na unidade. Aos poucos, o Marista deixou de ser apenas uma escola e passou a ocupar um lugar íntimo na memória familiar.

As primeiras lembranças vêm carregadas de afeto. Camila recorda o avô tocando violão na sala de casa, os irmãos na rotina escolar, a mãe como educadora e os espaços que marcaram sua infância. “Até me emociono falando sobre isso. Minha mãe, meus irmãos, todos nós juntos. O colégio sempre foi, e continua sendo, como uma extensão da minha casa”, afirma.

Entre as imagens que ficaram na memória estão o campo enorme, o corredor com árvores grandes, as salas da Educação Infantil e do Ensino Fundamental I e a porta que levava ao parque de areia, com brinquedos de madeira. Também havia as brincadeiras de pular elástico no recreio, a espera pelo sinal perto da sala e os jogos de bola ao redor do mastro.

Em sua memória, o recreio tinha outro ritmo. Era tempo de brincar, correr, conversar e estar em grupo. Décadas depois, em um contexto no qual foi necessária uma Lei Federal para restringir o uso de celulares durante aulas, recreios e intervalos nas escolas de Educação Básica, essas lembranças ganham novo sentido. O contraste, mais do que comparar épocas, reforça a importância da convivência coletiva.

“Tenho muitas lembranças da minha infância. Minha mãe foi quem me alfabetizou, e isso torna tudo ainda mais especial. Lembro do campo enorme e daquele corredor com árvores grandes ao lado. Eu adorava aquele lugar”, relembra.
A memória afetiva também passa pelas pessoas. Camila lembra dos irmãos maristas, professores, colaboradores e colegas de turma. Cada um ajudou a construir a ideia de comunidade que ela carrega até hoje: o irmão Waldemar, com o molho de chaves no bolso; o irmão Rufino, que entrava nas salas para rezar ou cantar; o irmão Collombo, que fazia cartões de aniversário com caligrafia cuidadosa; além do Beto da pastoral, do Tio Ivo e de tantos professores que marcaram época.

A decisão de matricular a filha na mesma escola também nasceu desse vínculo, era uma forma de permitir que uma nova geração da família vivenciasse o acolhimento, os valores e a convivência que marcaram sua própria história. “Minha filha também precisava viver e sentir tudo aquilo que eu vivi. Porque tudo o que desejamos para um filho é o melhor. E, para mim, não poderia ser diferente”, diz.

Com o passar dos anos, muita coisa mudou. O campo já não existe mais. Os irmãos não circulam pela escola como antes. Ainda assim, acredita que alguns elementos permanecem. A capela e a quadra da Marcondes continuam na paisagem afetiva da instituição. Mais do que isso, seguem vivos o cuidado, a escuta, a proximidade e o acolhimento.

“Muitas mães comentam: ‘O colégio é grande, mas não parece’. E essa frase diz muito sobre o que construímos aqui. Esse ‘não parece’ fala sobre proximidade, cuidado e vínculo. Nós, professores e colaboradores, fazemos questão de que as pessoas se sintam acolhidas. Aqui, o tamanho nunca significou distância”, afirma.

Inaugurado em 1938, o Colégio Marista Ribeirão Preto completou 88 anos de presença na cidade em 2026. Para Camila, essa história institucional se confunde com sua trajetória familiar. O que, para muitos, aparece como tradição educacional, para ela tem nome, rosto e memória: o avô ligado à fanfarra, a mãe professora, os irmãos como alunos, a filha que também estudou na instituição e sua própria atuação como educadora.

Para a diretora do Colégio Marista Ribeirão Preto, Lucia Montagnani, histórias como essa mostram como os vínculos construídos podem atravessar gerações. “A trajetória da Camila traduz, de forma muito sensível, o que significa pertencer a uma comunidade educativa. Quando uma ex-aluna retorna como professora e também escolhe o mesmo colégio para a formação da filha, percebemos que a escola é feita de memória, confiança e continuidade. São histórias assim que mantêm viva a relação entre famílias, educadores e instituição”, afirma.

Para Camila, o Marista representa uma soma de valores que atravessou sua vida como aluna, filha, mãe e professora. “Se eu tivesse que resumir o que o colégio representa para mim, eu diria: amor a Jesus em primeiro lugar. Humildade, escuta, presença, pertencimento, amizade, respeito ao próximo, à natureza e alegria”, conclui.