Às vésperas de sediar a Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2027, o Brasil se vê diante de um momento histórico não apenas para o esporte, mas também para a valorização da trajetória das mulheres no futebol. O evento, inédito no país, é apontado como uma oportunidade estratégica para revisitar o passado, reconhecer pioneiras e fortalecer políticas de equidade na modalidade.
Nesse contexto, tramita em Brasília o Projeto de Lei nº 656/2026, de autoria da deputada Enfermeira Rejane, que propõe a concessão de premiação às jogadoras que defenderam a seleção brasileira no Torneio Experimental da FIFA, realizado na China, em 1988. O Projeto de Lei prevê o pagamento de prêmio indenizatório em parcela única no valor de R$ 300.000,00 (trezentos mil reais) para cada atleta, um benefício indenizatório mensal de valor ainda a ser discutido além de acesso prioritário aos programas federais de atenção à saúde e reabilitação física.
A iniciativa é considerada relevante por especialistas e representantes do esporte, por reconhecer atletas que atuaram em um período marcado por limitações estruturais e pouca visibilidade.
No entanto, ganha força um movimento que defende a ampliação desse reconhecimento, com especial ênfase às jogadoras que participaram das Copas do Mundo de Futebol Feminino de 1991, na China, e de 1995, na Suécia. Essas atletas não apenas deram continuidade ao processo iniciado pelas pioneiras de 1988, como também foram protagonistas em um momento decisivo de consolidação do futebol feminino no cenário internacional.

Os Mundiais de 1991 e 1995 representam marcos históricos incontestáveis. Em 1991, o Brasil fez sua estreia em uma Copa do Mundo feminina oficial da FIFA, inserindo definitivamente o país na elite da modalidade. Já em 1995, a campanha brasileira teve papel determinante para garantir a classificação aos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996 — a primeira edição a incluir o futebol feminino no programa olímpico. Trata-se, portanto, de gerações que ajudaram a transformar o futebol feminino de uma prática marginalizada em uma modalidade reconhecida globalmente.
Levantamentos indicam que a seleção que disputou o torneio experimental de 1988 foi formada por 18 jogadoras, duas delas já falecidas. Com a inclusão das atletas que participaram dos Mundiais de 1991 e 1995, o número total de homenageadas pode chegar a 38 — incorporando 20 novas jogadoras, cuja relevância histórica é amplamente reconhecida por especialistas.
Para Miraildes Maciel Mota, a Formiga, ex-atleta da Seleção Brasileira de Futebol Feminino e atual diretora de políticas de futebol feminino no Ministério do Esporte e também a principal batalhadora para que esse reconhecimento seja estendido para as gerações de 1991 e 1995, a proposta busca corrigir uma lacuna histórica e assegurar que as protagonistas dos primeiros Mundiais oficiais recebam a valorização proporcional à sua contribuição para o desenvolvimento do futebol feminino no Brasil.
Essas jogadoras enfrentaram desafios semelhantes e, em muitos casos, ainda mais intensos, em termos de desigualdade de gênero, ausência de apoio institucional e invisibilidade midiática.Segundo Formiga, a possível ampliação do projeto ocorre em um cenário de crescente visibilidade da modalidade e reforça o debate sobre memória esportiva e igualdade de oportunidades. Para ela, “reconhecer de forma ampla, e com destaque, as atletas de 1991 e 1995, às vésperas do Mundial de 2027, é mais do que um gesto simbólico: é uma afirmação de compromisso com a justiça histórica e com a valorização plena do futebol feminino como parte fundamental da identidade esportiva brasileira”, finaliza.
Da proibição à regulamentação: a luta das mulheres pelo futebol no Brasil

Em 1941, durante o governo de Getúlio Vargas, foi decretada a proibição de mulheres praticarem esportes considerados “incompatíveis com as condições de sua natureza”. Entre eles, estava o futebol.
Essa restrição marcou profundamente a história do esporte no Brasil e perdurou por quase quatro décadas, sendo revogada apenas em 1979.
Mesmo assim, o futebol feminino ainda enfrentou barreiras: somente em 1983 a modalidade foi oficialmente regulamentada, garantindo às mulheres o direito legal de praticar qualquer esporte, inclusive o futebol.
Poucos anos depois, atletas brasileiras passaram a representar o país em competições internacionais e alcançaram resultados expressivos. Em 1988, a seleção feminina conquistou o terceiro lugar no Torneio Experimental da FIFA, considerado um marco inicial para a modalidade em nível global.
De acordo com a deputada federal Enfermeira Rejane (PCdoB), autora da proposta de reconhecimento às atletas, as jogadoras daquela geração enfrentaram condições extremamente adversas. “Havia machismo estrutural, ausência de apoio financeiro e até a utilização de materiais esportivos remanescentes da seleção masculina, como chuteiras e uniformes”, afirmou.
A parlamentar destaca ainda o papel fundamental dessas atletas na consolidação do futebol feminino no país. “Sem a Seleção de 1988, não existiriam as gerações de Marta, Formiga e Cristiane”, declarou.
Segundo a deputada, o projeto em tramitação vai além da concessão de um benefício financeiro. “Trata-se do reconhecimento oficial do Estado brasileiro. É um ato de justiça social e valorização esportiva, que busca devolver dignidade àquelas que abriram caminho para o futebol feminino, muitas vezes encerrando suas carreiras sem apoio, sem condições adequadas de saúde e sem o devido reconhecimento”, afirmou em publicação nas redes sociais.













